Pelos Versos de Vinícius

Parafraseando o Poetinha,

Eu ando triste por te adorar

E a vida insiste em se mostrar

Mais distraída dentro de um bar.

 

O nosso assunto já se acabou,

O que era junto se separou,

O que era muito se definhou.

 

Mas ainda existe um amor que mente

Para esconder que o amor presente

Não tem mais nada para dizer.

 

São os versos do Poetinha

Que os tomo emprestado

Para fazer suas as minhas palavras,

Meus sentimentos, pensamentos,

Devaneios matinais.

Boa Vista, 10/09/2007.

Debates em vão!

Por Sérgio Murilo

Aí, você olha
e não sabe se escuta,
você escuta
e não sabe se acredita.
Porque a história pregressa
é maculada, maldita!
E aqueles que estão iniciando
não apresentam nada diferente:
“Vou mudar o Brasil quando for presidente!”
São palavras aguerridas,
gestos contundentes,
são frases floridas,
discursos reluzentes.
Tantas promessas em vão,
tanto teatro, quiçá, comédia ou não.
Invadindo casas em horário nobre,
seja rico, seja pobre.
Talvez um drama fanfarrão,
num debate em plena televisão.
Ali, só não se vê,
a mais sublime verdade,
a expressão com seriedade,
a certeza de que se vai fazer.
Aí, você olha
com seu rosto em prantos
e percebe as dores do povo,
com seus desencantos,
com seus dissabores.
Sem horizonte, sem porto seguro,
sem veredas, sem flores.
Sem rumo, sem prumo, sem futuro.

Cachaça e poesia – Sérgio Murilo

Da esquerda pra direita: o músico Luiz Carlos Pereira, recentemente desencarnado, e o poeta Sérgio Murilo, bebemorando a música e a poesia.

Sou um poeta fecundo,
espargindo mel e flores,
sucumbindo prantos, dores.
Emanando o amor pelo mundo.

Sou também, errante.
Derramo, por vezes, a peçonha.
Boto de lado a vergonha
e me faço um ser lancinante.

Ora, adoro brincar com as cores,
embalado por doce melodia.
Ora, açodo os dissabores,
evidenciando a minha rebeldia.

Sou um bardo sem pudores,
banhado de cachaça e poesia.

 

Sérgio Murilo

Ao meu passado

Diante da estante de livros velhos
vejo o meu tempo corrido, passado,
muito mal passado, tempo sofrido,
tempo sonhado, tempo vivido, gozado

Vejo meu tempo corrido, perdido,
muito tempo perdido, complicado,
perplexo, mal aplicado, devaneios,
depressão, sinceros antolhos

Tinha muito tempo, meu próprio tempo,
todo o tempo do mundo pra gastar,
esbanjar, pernoitar, esperdiçar

Mas agora a ampulheta
tem menos da metade da areia,
e caindo! Esvaindo…

 

Boa Vista, 10/05/2018

Reflexões de um só

Foto: Assis Cabral

Murmúrio pálido de um corpo
que sofre as desgraças
da dor de não ter ninguém

Oh! solidão demoníaca,
que saudades me vêm
dos tempo de criança,
quando sozinho brincava
sob os olhos da avó querida

Ou quando cantava
às paredes, no banho de cuia
e minha mãe ouvia aquele cântico

Saudade atroz!
Do murmúrio forte
do vento que soprava no teto
da casa de taipa,
na minha terra querida,
carregando o coraçãozinho
de forte esperança na criança
que em verdade
nunca soube da vivência
de ter grandes amigos

Dor máxima,
de intensidade maior
que os ventos noturnos,
daqueles que quase arrancam as palmas
dos buritizeiros nos campos
verdes do lavrado macuxi

Dor máxima,
mais forte que o sol
que queimava meu rosto
quanto tentava, contra o vento,
levar, a pedaladas,
a bicicleta adiante

Dor… Dor…
dor da saudade
da solidão das estrelas,
quando lembro meu céu
cheio de cores,
da minha lua de esplendor maior

Dor mais forte ainda quando,
na madrugada calorenta e abafada
(tão diferentes das minhas madrugadas
amenas de vento forte da savana)
acordo sedento e não há
nenhuma gota d’água
para aliviar a sede dos tempos d’outrora

Não vejo mamãe…
não vejo maninha…
não vejo maninho…

Manaus, 07/08/87

PARADOXO

Havia um barco
chamado saudade,
no qual eu detestava navegar

E um patamar,
plácido recanto de almas
sob as luzes da ribalta
que eu tanto amava

Havia também
uma criatura
do outro lado do céu,
que falava italiano,
tinha olhos azuis
e cabelos cacheados,
da cor do trigo maduro

Eu muito a observava
entre a multidão dos perdidos

E assim foi
por algum tempo,
até que numa noite
nossos olhos se encontraram

E nos maravilhamos muito,
amando-nos profundamente
Todos os dias
sonhávamos juntos,
no vale encantado dos ébrios errantes,
sobre a relva fresca regada
pelo orvalho da manhã,
onde cavalgavam
unicórnios azuis alados

Mas um dia,
numa das manhãs de outuono,
ela não veio comigo
ver o sol nascer,
pois partiu pra guerra
como concubina do general de Mussoline

E eu fiquei
no mundo dos homens,
vagando entre os desfiladeiros,
vivendo das miragens
que se formam no deserto
em que nosso vale se transformou,
naufragando a cada olhar de Carlitos

(Manaus, 18/12/1987)

Sala de Visita – Sérgio Murilo

O nosso amigo poeta Sérgio Murilo nos  faz uma visita inesperada para lembrar que hoje, 21 de março, comemora-se o Dia Mundial da Poesia, nos trazendo um presente de sua autoria:

CORAÇÃO DE POETA

Por Sérgio Murilo

Ah! Esse coração pulsante,
repleto de versos e prosas.
Que por um instante
exala o perfume das rosas.

Coração que baila, que canta,
que brinda as odes da vida.
Que nos põe no colo, acalanta.
Que nos é regaço, guarida.

Ah! Esse coração que é alegria
mas, também, é pranto!
Apinhado de rimas e encanto,
adornado de pura poesia.

E o autor do blog, aproveitando o ensejo, apresenta um poema seu, feito na adolescência, que reflete os conflitos internos da época. Em homenagem a este dia:

O POETA

O que é o poeta
Se não sofrer?
É como o rio sem correr!
A dor,
O sofrimento,
A vida o amargor.
Tudo isso nos vem ser
Da existência o fervor,
Do todo o momento,
Da beleza o teor.

O que é o poeta
Se não amar?
É como uma estrela
Sem brilhar!
O sabiá
Sem cantar.

Um poeta sem amor
É um espinho
Sem rosa,
Um jardim sem flor,
Uma fera mimosa.

Um poeta sem amor
É um arco-íris
Sem cor.

Um poeta sem amar,
É um vento
Sem soprar,
É a lua
Sem luar.

O que é o poeta
Se não sentir?
É como uma criança
Sem sorrir!
É como a esperança
Sem persistir.

O que seria do poeta
Se fosse feliz?
Seria como o desejo
que não quis!
Seria como o beijo
Que ao puro sentimento
Contradiz.

De que me valeria a vida
Se fosse um mar de rosas,
Se não me fosse tão sofrida,
Para poder descrevê-la
Em versos e prosas?

(Manaus)