Sala de Visita – Assis Cabral

Assis Cabral: “Acredito que a inteligência sobrevive ao corpo biológico. Mas posso estar enganado”.

O nosso convidado de hoje não é bem um convidado. É o “dono” do blog: Assis Cabral. Portanto, vamos pular a parte das apresentações, pois há um perfil disponível na página Sobre o Autor.

A ideia deste post foi minha, o Assis entrevistador. Desde que nos entendemos por gente conversamos como se fossemos duas criaturas distintas. Há contradições, discussões, com uma certa autonomia de pensamento. Mas há também muita confidência e cumplicidade entre nós. Acho que conheço o Assis entrevistado melhor do que ele a si mesmo,  e sei que há muita coisa que tem receio de divulgar, sente dificuldade de expressar, seja por medo do ridículo, seja por falta de convicção, pois as ideias ainda estão em formação. Sem contar que se trata e uma pessoa extremamente tímida, embora não pareça.

Ah, o insight para esta entrevista me surgiu quando o vi ouvindo um audiobook  do Nietzsche. Aí já viu, né?

Você não acha estranho, coisa de maluco, ser entrevistado no seu próprio blog, e ser entrevistado por si próprio? Não é egocentrismo ao extremo? – se é que existe egocentrismo ao extremo, ou meio-egocentrismo…

Pois é… Acho que é coisa de maluco mesmo. O primeiro critério pra aceitar este convite foi que Eu não faria qualquer edição das minhas respostas. Qualquer coisa neste sentido seria por sua conta, o Assis entrevistador. Eu sou o Assis “respondedor”.

Mas, como já escrevi aqui antes, este é um blog egotista, o que não confundo, em hipótese alguma, com egoísmo. Tenho visto algumas pessoas postarem no Facebook que escrevem isto ou aquilo porque “o Face é meu” e, em outras palavras, quem não gostar que se dane. O que não é verdade. Se tu escrever alguma coisa no teu Face que seja denunciado, o Zuckerberg te suspende, ou até bane do Facebook. Nada é teu na Internet. Em última análise é teu e dos Estado Unidos, que é o dono da rede mundial. O que eu acho mais próximo de meu na rede é um blog, um site (sítio): eu paguei pelo domínio, pela hospedagem e pelo tema.

Enquanto nos dá esta entrevista você está ouvindo o audiolivro O Anticristo, de Nietzsche. Este autor não seria o motivo desta auto entrevista? E não seria melhor ler do que ouvir Nietzsche, ou qualquer outro filósofo?

(Risos) Eu comprei carne agora à noite. Então tive que cortar, separar o que vai ser moída, o que vai ser bife; moer, cortar e preparar os bifes, prover de temperos, separar em porções… e ainda fazer o almoço de amanhã, que vai ser escalope de lagarto ao molho madeira. E enquanto fazia isto ouvia Nietzsche. Agora, eu prefiro sempre ler do que ouvir ou assistir. Tanto que vou ler o livro, pois fixa melhor na mente.  Sem contar que enquanto estamos aqui, estou perdendo o conteúdo, dividindo a atenção contigo. E se tem uma virtude que eu não tenho é foco na atenção. É uma obra muito boa, eu recomendo.

Por que um blog? Com surgiu a ideia?

Eu tenho um outro blog, daqueles grátis, que criei para os meus então alunos de Direito Tributário, que está abandonado. Mas era uma coisa mais acadêmica, não chegava a ser algo pessoal. O principal motivo para este blog, com domínio, tema pago e tudo o mais, é que estou em uma fase financeira difícil, então resolvi vender um produto, que sou eu mesmo: o meu talento, o meu trabalho. Mas qual talento? Qual trabalho? Fui fazer cadastro num software do Google pra dinamizar e monetizar o blog e fiquei decepcionado comigo mesmo. Me perguntaram qual serviço oferecia… não tinha. – Qual o seu público alvo? Olhei pra tela do computador e respondi: – Eu também quero saber! É complicado isso. Mas agora que já estou aqui, vou deixar ficar. Sempre gostei de escrever, mas sempre negligenciei isso. Tenho alguns poemas escritos, mas me acho horrível, medíocre, como poeta. Tenho tentado concluir um romance, ou uma novela, mas não tenho a disciplina necessária para desenvolver uma prosa, escrever todos os dias. Mas, depois de sexo, escrever é do que mais gosto. E de ler também!

Já que continuamos ouvindo O Anticristo, o que você acha de Deus?

Puts! Tu quer uma resposta verdadeira ou pronta? A primeira pergunta que Kardec faz aos espíritos em O Livro dos Espíritos é: “O que é Deus?” A resposta é “Inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”. Mas o assunto se desenvolve a ponto dos espíritos dizerem a Kardec que há coisas mais importantes para nós, do que tentar entender Deus. Esta é a minha posição cristã, que tem fundamentação na Doutrina Espírita. Mas tem o Assis crítico, questionador, justamente o que me fez me afastar do Movimento Espírita em Manaus, onde cresci. Por exemplo, tenho algo em comum com Nietzsche: acho a filosofia oriental, como o budismo, o taoismo, afora os rituais propagados pelos sacerdotes, monges, mais profunda do que a doutrina cristã. E olha que me acho um judeu espiritual. Acredito na reencarnação, que é uma crença, ou princípio, que antecede em muito o judaísmo. Eu leio a Torá, me identifico com a história ali escrita, e sei que é o resultado das tradições, postas a termos, para identificar, distinguir, manter a unidade do povo hebreu em relação aos demais povos. Neste sentido as escrituras são de suma importância. Mas não me furto de questionar o Deus antropomórfico das escrituras. E acredito em Jesus. Não como O filho de Deus. Todos nós somos filhos de Deus. Acredito no Jesus histórico, um judeu que falou para judeus, em um Israel dividido, na época. Mas isso não vem ao caso agora. Então, eu me acho um judeu cristão. Durante uns 300 anos o cristianismo – que só recebeu esta denominação mais de 100 após a morte de Jesus – foi apenas mais uma ceita judaica, como os fariseus, saduceus e nazarenos. Quando adolescente, tinha um amigo judeu, um senhor com quem conversava muito, com ele e o seu filho. Discutíamos “a lei e os profetas”. Eles me convidaram muitas vezes para ir à Sinagoga, na Leonardo Malcher, em Manaus. Dizia que eu podia ser judeu convertido. Mas nunca fui. Me sentiria preso com os rituais, com as tradições – era o que pensava na época. Aderi ao espiritismo, nesse tempo, pela falta de rituais, e a necessidade de um norte. Sem contar as pessoas que conheci no Movimento, amigos que amenizaram a minha carência de família, a saudade de Boa Vista. E me afastei quando se massificaram as críticas contra a minha forma holística de investigar Deus, o homem, o universo. E Nietzsche tem essa coragem: de criticar, de rasgar o véu do templo. E ele vê os cristãos como judeus originários, embora decadentes, ao contrário do judaísmo, que pode ser tudo, menos decadente, pois cria mecanismos para manter sua identidade. E como ele, não posso aceitar o cristianismo católico. É só ler a História!

Acreditar na reencarnação não é fantasioso e contraditório para uma pessoa que se diz sem fé?

Eu não tenho fé, pelo menos muita – ainda guardo uma pontinha de fé de que vou ganhar na mega sena (risos).  Mas não sou materialista. Ser materialista hoje é sinônimo de burrice, ignorância. Este conceito precisa ser revisto. A pessoa pode não acreditar no Deus de Abraão e de Moisés, mas pode acreditar na Força. O Fritjof Capra é um autor que busca unir o misticismo oriental à física quântica. Voltando ao Livro dos Espíritos, pra aproveitar o gancho, a frase feita: “O nada é coisa alguma e coisa alguma não existe”. As ondas eletromagnéticas, o wifi da internet, o bluetooth, são demonstrações irrefutáveis de que o “imponderável” existe. O mundo que considerávamos físico, material, no passado, é  apenas uma ilusão, algo virtual, pois se tu for investigar, investigação científica, vai chegar às partículas subatômicas, aos léptons, aos quarks… O veículo, este corpo biológico, como tudo o que é biológico, ou tudo no universo, inclusive o próprio universo, morre, mas não a inteligência, pois é absolutamente irracional imaginar que chegamos a um tal estágio de desenvolvimento mental, do raciocínio, evidente demonstração da evolução da inteligência, pra de repente tudo acabar. Como chegamos até o atual estágio, então? Se não foi transmigrando, seja em corpos biológicos, seja em propagação pelo universo subatômico? Acredito que a inteligência sobrevive ao corpo biológico, não morre, se transforma, evolui. Mas posso estar enganado. Sempre há uma margem de erro e, por menor que seja, tal margem é factível.

Voltando à produção literária: desistiu?

Eu sou difícil de desistir. Não sou exatamente tenaz, mas também quase nunca desisto de alguma coisa. Agora, quando desisto, desisto pra valer! Mas da literatura nunca vou desistir. Eu a busco, mas ela me foge à pena. Como escreveu Lao Tsé: o Tao é o imponderável. Aquele que tenta pegar, reter o Tao, este não o consegue, mas aquele que solta o Tao, que o deixar ir, este o tem. É mais ou menos isso, a ideia é esta.   A tendência é me contentar com a minha mediocridade. Mediocridade, aliás, que é essencial, não formal…

Como assim?

A minha mediocridade é de essência, é profunda, não é de forma. Não consigo escrever porque sou um ser medíocre, vazio. Não tenho essência, a essência que pleiteio. E falta a paixão necessária, o desprendimento para escrever. Eu sou muito materialista, quero resultado, quero ser best-seller sem concluir um trabalho. Leio, releio o que escrevo, penso que ninguém vai ler aquilo… aí não escrevo mais, não concluo o que começo.

Você não está sendo autocrítico demais?

Não, não. A minha mediocridade é resultado da minha preguiça. Preguiça mental, preguiça existencial. Em algum momento da minha vida eu tomei um ânimo, dei uma largada, mas me perdi no meio do caminho. Fiquei entre o ser e o vir a ser. Estudei inglês, já fui quase fluente, mas depois de 30 anos, não lembro quase nada. Ainda me viro, quando viajo. Mas o problema é este: “me viro”. Era pra ser fluente em inglês e dominar outros idiomas, ler Nietzsche, Marx e Dostoiévski no original, mas me apequenei, me deixei levar pelo comodismo, pela preguiça.

Como você gostaria de estar agora? Quem ou o quê você gostaria de ser?

Eu queria – e quero! – ser eu mesmo. Sei que não tem outra alternativa. Eu sou eu, como tu és tu, e pronto! – embora neste caso sejamos, “em tese”, a mesma pessoa… (risos).

Eu gostaria de estar como o Paulo Coelho. Não ser o Paulo Coelho. Queria ser lido no mundo todo, milionário e morar na Suíça – pois gosto muito do frio e imagino a segurança por lá, podendo andar pelas ruas a qualquer hora, sem perigo de ser assaltado ou assassinado -, vindo a Boa Vista sempre, tipo: feriadão e finais de semana… (risos). Mas não queria ser o Paulo Coelho. Primeiro porque ele é mais velho, mais feio, tem menos tempo de vida do que eu – em tese!  Claro que estou sendo sarcástico. Não quero ser o Paulo Coelho porque não o acho uma grande literatura. Não li seus últimos livros, só os primeiros, mas fiquei puto da vida quando soube que ele escreveu um livro sobre a Mata Hari, pois pensei em escrever algo sobre ela, uma figura mítica a quem eu queria ter encontrado e passado algumas noites…

Por que?

Ela me inspira ter sido muito boa de cama.

3 comentários em “Sala de Visita – Assis Cabral”

  1. Achei o máximo, essa sua idéia de entrevistar a si mesmo. Uma loucura saudável, se é que posso chamar assim!
    Assis…gosto muito de ” te ler”. Me surpreendi com seu humor, hora sarcástico, hora engraçado mesmo kkkkkkk. Serei uma leitora assídua.
    Posso compartilhar?

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